segunda-feira, 5 de novembro de 2018

INTRODUÇÃO

O projeto de pesquisa “Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas do Submédio São Francisco: Identidades em Movimento”, coordenado pela professora Márcia Guena, do Departamento de Ciências Humanas da UNEB, Campus de Juazeiro, nos colocou em contato com uma realidade pouco visível na cidade de Juazeiro e no semiárido. Os subprojetos desenvolvidos pelos bolsistas, entre eles eu, despertou inúmeras questões. Entre elas a das tecnologias. Impressionávamo-nos, eu particularmente, com as antenas parabólicas brilhando no topo das casas de pau a pique. Impressionava-me a Rede Globo ligada no vídeo-show em pleno sol das 14 horas, uma das horas mais duras do dia, enquanto nós penávamos apenas em andar de uma casa pra outra.

Ao iniciarmos as oficinas de Web ou mesmo de fotografia, nos impressionávamos também com os celulares nas mãos dos jovens e o acesso às redes sociais. Ainda que suas comunidades não tivessem sinal de Internet, todos compravam pacotes de serviços das operadoras e mantinham seus perfis no Facebook. Aquelas questões permaneceram latentes na minha memória, sensibilizadas pelas imagens tão contrastantes: não há postos de saúde na maioria das comunidades; a água não é tratada; não há qualquer vestígio de projeto de urbanidade (calçadas, passarelas, plantio de árvores e plantas); mas as parabólicas estão lá firmes.

Havia também outra firmeza: algum tipo de associativismo. Apesar de muitas comunidades de Juazeiro não serem certificadas, mas já se organizavam de alguma maneira: em torno da atividade laboral; em torno das atividades religiosas; ou em torno da terra. Foi essa perspectiva, inicialmente em Juazeiro, que suscitou a construção desse trabalho: Quilombos da Bahia em Rede: uma Netnografia da presença de páginas quilombolas no Facebook. As oficinas de Web realizadas no projeto já citado, a presença constante de comunidades quilombolas no Facebook, o afã da juventude em conhecer com mais profundidade a Internet, o blog da pesquisa “Quilombos e Sertões”, sempre acessado por quilombolas, o ativismo de entidades como a Confederação de Associações Quilombolas (CONAQ) e do Koinonia, uma organização vinculada a Igreja Católica, tudo isso foi nos apontando o caminho e confluindo para um desejo acadêmico de estudar mais regularmente essa presença e que tanto nos ajuda nas investigações sobre comunidades quilombolas.

            Assim, “Quilombos da Bahia em Rede: uma Netnografia da presença nas páginas do Facebook”, traz a análise de nove páginas de comunidades quilombolas da Bahia presentes no Facebook, utilizando como metodologia a netnografia através de autoras como Suely Fragoso, Raquel Recuero e Adriana Amaral (2011), Robert Kozinets (2014) e Christine Hine(2004). Fizemos inicialmente um levantamento preliminar das comunidades quilombolas presentes no Facebook no Brasil. Percebemos que seria um universo muito grande e delimitamos a Bahia, que concentra um pouco mais de 600 das 2.900 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Palmares. Tentamos restringir a área do São Francisco, mas percebemos que não havia registros suficientes. Assim, após a busca por palavras chaves, que serão pormenorizadas na metodologia, chegamos a nove comunidades, cujo critério principal foi atividades da página. Muitas existiam mas não registravam atividade, o que impedia a análise.

Partindo de dados já divulgados pela ONU sobre acesso a Internet, que registra que 3 bilhões de pessoas hoje acessam as redes sociais e outros 4 bilhões estão off-line, nos perguntamos como se dava o acesso das comunidades quilombolas a rede, mais particularmente, como interagiam com a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook. Partimos da hipótese de que estas comunidades usavam esta rede social de forma coletiva, mas que possuíam dificuldade no emprego de todas as suas potencialidades. Foi isso que perseguimos ao longo desta monografia.

            Deste modo, esta pesquisa persegue essa hipótese inicial e para isso optamos por realizar uma investigação sobre a forma como essas comunidades utilizam as potencialidades do Facebook, realizando uma análise descritiva das páginas, a partir das ferramentas oferecidas na plataforma. Não pretendemos realizar análise dos conteúdos veiculados, ainda que façamos inferências sobre eles, muito mais no sentido descritivo do que analítico. Também não pretendemos realizar uma etnografia dos grupos. O nosso locus de pesquisa é virtual: são as páginas e o que elas apresentam. É uma netnografia, cujo pesquisa de campo é virtual e esse campo são as páginas do Facebook. Não nos debruçamos na forma como essas mensagens foram produzidas ou quem as produziu. Estamos fazendo uma análise da mensagem veiculada focando nas formas de uso da plataforma. Ou seja, é um estudo focado na mensagem a partir das ferramentas oferecidas pela plataforma, esta pensada como uma mídia, portanto passível de estudos dentro do campo da Comunicação.

            O objetivo principal dessa pesquisa é verificar se o Facebook é um instrumento efetivo de visibilidade e de ativismo virtual para as comunidades quilombolas da Bahia. Como objetivos específicos pretendemos verificar que ferramentas as comunidades utilizam e de que forma; que links estabelecem com outras comunidades; como se dão os compartilhamentos e acessos a essas páginas; como as ferramentas oferecidas pelo Facebook são utilizadas e o que esse uso denota. 

            Esta monografia está dividida em 5 capítulos, contando com a Introdução. Primeiro iniciamos com a Introdução, O segundo capítulo “QUILOMBOS: RESSEMANTIZAÇÕES E MARCO LEGAL NO BRASIL”, trata do conceito sobre quilombos ao longo da história e o marco legal a que estas comunidades estão submetidas, desde a constituição de 1998, com o objetivo de contextualizar as comunidades que estamos tratando. No terceiro capítulo “A INTERNET, AS REDES SOCIAIS E AS RELAÇÕES VIRTUAIS”, historicizamos o surgimento da Internet e problematizamos o uso dela e das redes sociais através da discussão de Cibercultura. O quarto capítulo metodológico: NETNOGRAFIA COMO MARCO TEÓRICO-METODOLÓGICO aborda sobre o fazer etnográfico na internet e discorre sobre o método utilizado na pesquisa. No quinto capítulo “PÁGINAS QUILOMBOLAS NO FACEBOOK: USOS E VIRTUALIDADES”, realizamos a análise das páginas propostas, trazendo esse conteúdo com imagens. Por fim, apresentamos as considerações finais e as referências bibliográficas.

            Com essa estrutura propomos aqui uma discussão sobre a presença e ativismo das comunidades quilombolas no facebook, tendo consciência de que é um estudo aproximado dessas possibilidades, através da metodologia que pudemos dispor nesse trabalho de conclusão de curso.

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