Este capítulo tem por
objetivo traçar um breve perfil do impacto do surgimento da Internet e o
estabelecimento de novas relações a partir das redes sociais, em particular do
Facebook. Acreditamos que essa discussão seja necessária para compreendermos a
forma como as diversas comunidades tem ocupado esse espaço em uma perspectiva
política de atuação. Apesar do principal uso das redes sociais ter o objetivo
de socialização de perfis individuais para só então partirem para contatos com
outros, há uma incontável presença de perfis coletivos, com diferentes
sentidos, desde as propostas econômicas, inseridas no mercado até as mais
libertárias, com objetivos emancipatórios e sem fins lucrativos. Desse modo,
queremos apenas delinear que mundo é esse para o qual dedicamos atenção na
realização desse trabalho.
A
ideia cristalizada que se tem de um quilombo pós-escravidão precisa ser
desconstruída. Na contemporaneidade, as comunidades negras rurais quilombolas
possuem acesso a diferentes meios de comunicação. O isolamento em aldeias
inóspitas e inacessíveis cede lugar a energia elétrica e consequentemente ao
televisor, ao rádio, ao aparelho de dvd, a antena parabólica, a antena da TV
por assinatura, em alguns lugares e ao celular, que conectado a uma antena
externa, não só permite fazer e receber ligações, mas acessar a internet, mais
especificamente as redes sociais, como facebook, twitter, instagram e whatsapp,
só para citar algumas plataformas mais hegemônicas neste limiar do século XXI.
É
neste contexto de comunidades em rede, conectadas com um mundo globalizado via
internet, que se objetiva estudar nesta monografia a presença de populações
quilombolas na WEB, mais especificamente no Facebook. Como elas organizam suas
páginas, as fotografias, as publicações, ao tempo em que se descreve os
aspectos técnicos, se busca, uma tentativa de interpretação do conteúdo
publicado nas páginas, perfis e grupos.
Antes,
porém, de apresentar a parte empírica da pesquisa, que é a descrição densa
proposta por Clifford Geertz (2008), dentro da Netnografia enquanto método, se
discute sobre a Cibercultura, como emergente campo disciplinar, a partir do
ponto de vista da Comunicação, principalmente, mas não só. A Cibercultura
atravessa a Educação, a Antropologia, a Ciência Política, a Sociologia, a
Computação e naturalmente, a Comunicação e o Jornalismo e as demais
habilitações da área: Relações Públicas, Rádio e TV, Audiovisual, Cinema. Desse
modo, considera-se importante apresentar este debate preliminar sobre
Cibercultura, a partir de autores como Pierre Lévy (1999, 1993, 2000, 2010),
André Lemos (2004), Luiz Adolfo Andrade (2012), Erick Felinto (2011).
3.1 OS PRIMÓRDIOS DA INTERNET
A Rede Mundial de
Computadores (World Wide Web), a Intenet, nasceu vinculada a objetivos
militares, acompanhando o caminho de surgimento de grande parte da tecnologia
desenvolvida no mundo. O marco de início foi a Guerra Fria, uma disputada entre
ocidentais e orientais que conduziu a uma corrida tecnológica sem precedentes.
Em 1957, a
antiga União Soviética colocou em órbita o seu primeiro satélite espacial
artificial, o Sputnik, e, quatro meses depois, o presidente norte-americano
Dwight Eisenhower anunciava a criação da AdvancedResearchProjectsAgency (ARPA),
ligada ao Departamento de Defesa, cuja missão era pesquisar e desenvolver alta
tecnologia para aplicações militares. (PINHO, 2003, p. 21).
Em dezoito meses a ARPA
lança um satélite artificial, o primeiro dos Estados Unidos que permite o
funcionamento desse projeto. Pinho (2011) aponta que, apesar de haver um
cerceamento das comunicações tantos nos países capitalistas e comunistas o
Departamento de Defesa norte-americano sistematizava “planos complexos de
comando e controle para que as altas patentes militares e os políticos pudessem
se comunicar e sobreviver no meio de uma guerra nuclear” (PINHO, 2011, p. 21).
Assim,
no marco da Guerra Fria, o pesquisador Carl Robnett Licklider associado a empresa
Rand Corporation, descobriu ser necessário a criação de um sistema de
comunicação não hierárquico em substituição do tradicional e “a implementação
de redes de comutação de pacotes, os quais garantiriam que o comando e o
controle dos Estados Unidos pudessem sobreviver no caso de um ataque nuclear
maciço destruindo o Pentágono” (PINHO, 2011, p. 22). Então eles partiram de uma
estrutura que possuía uma central de comunicação, localizada no Pentágono, para
um sistema com múltiplos centros. Antes a comunicação partia do Pentágono, com
diversos raios. O novo sistema proposto tinha interconexões em vários pontos e
não impedia que a mensagem chegasse ao seu destino caso o centro fosse
destruído. Essa tecnologia foi desenvolvida entre 1962 e 1964, como historiciza
Pinho (2011,
p.23),
“é como uma esfera, na qual cada nódulo está conectado com todos os outros e
ainda com o central por múltiplos links”. Assim,
O modelo de
comunicação não-hierárquica ainda tem a vantagem de possibilitar um protocolo
ou conjunto de regras para dividir a mensagem em pacotes menores, os quais
seriam endereçados separadamente e remetidos de uma máquina para outra, com
evidentes vantagens na velocidade de transmissão e no tráfego por rotas menos
congestionadas. (PINHO, 2011 , 23)
Assim a ARPA, em 1967,
lança o “primeiro plano real de uma rede de comutação de pacotes”, (Idem, p.
24) sendo batizada de ARPAnet. Esta foi a antecessor da Internet, que iniciou
seu caráter experimental em 1969, formada inicialmente pela conexão de computadores
da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), do Stanford
ResearchInstitute (SRI), da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB)
e da Universidade de Utah. Em 1972, a BBN cria o primeiro programa de envio de
correio eletrônico. Em 1973 a Inglaterra e Noruega se juntam a rede por meio do
UniversityCollege de Londres e da Royal Radar Establishment. Então iniciam-se
as pesquisas para aperfeiçoar o sistema de transferência de dados, fazendo com
que a ARPAnet chegue “ao final de 1974 com 62 servidores e a necessidade de
aperfeiçoar o protocolo de comunicação” (Idem, p. 26).
O Bob Kahn e
VintonCerf desenvolveram e propuseram um novo conjunto de protocolos que
permitia a comunicação entre diferentes sistemas. O TransmissionControlProtocol
(TCP) e o Internet Protocol (IP) oferecem 4 bilhões de endereços diferentes e
utilizam uma arquitetura de comunicação em camadas, com protocolos distintos
cuidando de tarefas distintas. A ARPAnet adotou progressivamente o TCP/IP, que
funcionou em paralelo com o NCP, até o dia 1º de janeiro de 1983, quando cada
máquina conectada com a ARPAnet teve de passar a usar o novo conjunto de
protocolos TCP/IP (Idem, p. 27).
Surgiram
outros protocolos de transmissão mais sofisticados como o Net News
TransferProtocol (NNTP) e as possibilidades de uso vão se expandindo. Essa rede
hoje inteliga 2.500 universidades e institutos de pesquisa nos Estados Unidos,
na Europa e no Japão. Neste sentido,
em 1980 foi
criada aBecauseIt´s Time Network (Bitnet), uma rede acadêmica da City
University de Nova York, com conexão à Universidade de Yale, que utiliza
sistemas de correio eletrônico e um mecanismo conhecido como 'listserv', que
permitia aos usuários publicar artigos e subscrever mailing lists especializadas
em determinados assuntos enviando mensagens para um servidor de listas (idem,
p. 27).
Em 1984, a National
Science Foundation (NSF), um órgão independente do governo norte-americano,
passou a ser responsável pela manutenção da ARPAnet. Em 1988 foi criada a
Internet Relay Chat (IRC), desenvolvido por JarkkoOikarinen, que permite a
diversos usuárias conversarem online. “Outros países se conectam a rede:
Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Noruega e Suécia”. Mais 10
países entram em 1989: Austrália, Alemanha, Israel, Itália, Japão, México,
Holanda, Nova Zelândia, Porto Rico e Reino Unido. “No mês de setembro do mesmo
ano surge oficialmente o projeto de uma rede brasileira de pesquisa, a Rede
Nacional de Pesquisa (RNP), formado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia,
CNPq, Finep, Fapesb e outras instituições de pesquisa” (PINHO, 2011, p. 30).
A
WorldWide Web surge em 1991, idealizada pelo engenheiro Tim Berneers-Lee, no
Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), em Genebra, na Suiça. Este
é um modo de organização da informação e dos arquivos na rede. “É baseado no
modelo de cliente-servidor, tem como principais padrões o protocolo de
comunicação HTTP, a linguagem de descrição de páginas HTML e o método de
identificação de recursos URL” (PINHO, 2011, p.33). Em 1991 foi permitido o uso
da rede para fins comerciais. Em 1993 os meios de comunicação e os negócios
para a utilizar a rede. O uso dos recursos de multimídia na Internet surgem a
partir do uso de um programa, o Mosaic.
A abertura da
internet comercial ocorreu no Brasil em maio de 1995, deixando a rede de ser
exclusiva do meio acadêmico para estender seu acesso a todos os setores da
sociedade. Entre outras razões, a expansão verdadeiramente vertiginosa da
Internet no país (e, naturalmente, em todo o mundo) foi estimulada pelo
contínuo e maciço ingresso no ciberespaço de governos, organizações,
instituições e empresas comerciais, industriais e de serviços. Aos poucos, até
mesmo as empresas de comunicação tradicionais migraram para a rede mundial
buscando oferecer aos internautas conteúdo e informação durante as 24h do dia,
todos os dias.
Todavia, embora o
desenvolvimento de tecnologias propiciasse a expansão da internet, o acesso
ainda continuaria restrito por alguns anos, como veremos no ponto a seguir.
3.2 AS EXCLUSÕES NA GRANDE REDE MUNDIAL
Assim,
a expansão da Internet levou a um crescimento vertiginoso de sonhos e
possibilidades, muitas das quais não se concretizaram. Um das discussões mais
otimistas se davam em relação a democratização da informação e da comunicação.
Em parte essas expectativas se concretizaram. Porém a exclusão digital também
acompanhou esse crescimento. Um contingente de pessoas já marginalizadas pelo
sistema produtivo não tinham acesso à INTERNET, o que provoca exclusões
importantes e a emergência do chamado “analfabetismo digital”.
Na
América Latina, a cobertura de celulares atinge quase a totalidade da população
e nos últimos dez anos o número de usuários da Internet no continente duplicou.
“A porcentagem de latino-americanos que usam a
Internet passou de 16,6% em 2005 para 53,5% em 2015, segundo o relatório
"O ecossistema e a economia digital na América Latina", coeditado
pelo CAF -banco de desenvolvimento da América Latina-, CEPAL, CET.LA e Fundação
Telefônica” (CAF,2016). Porém está longe das taxas de uso dos países da
Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) que são de 82%.
Esta organização é composta por 35 países. A maioria possui PIB e índice de
Desenvolvimento Humano elevados.
Em 2015, em relatório divulgado pela
International Telecommunication Union (ITU), agência das Nações Unidas para as
telecomunicações, o mundo já atingia 3,2 bilhões de internautas, sendo 2
bilhões em países em desenvolvimento. Porém,
2/3 da população das nações em desenvolvimento, ainda não tem acesso à
Internet. (O GLOBO, 2015)
Esses novos dados não apenas mostram quão rápido foi o progresso
tecnológico feito até hoje, mas ajudam a identificar aqueles que estão sendo
deixados para trás pela economia digital, assim como as áreas que mais precisam
de investimentos — disse Houlin Zhao, secretário-geral da ITU em conferência de
imprensa nesta terça-feira, em Genebra.
Há 15 anos eram apenas 738 milhões de internautas no mundo, sendo
apenas 100 milhões no mundo em desenvolvimento. Entre 2000 e 2015, a penetração
da internet cresceu sete vezes, de 6,5% para 43% da população global. A
proporção de residências com acesso à internet avançou de 18% em 2005 para 46%
em 2015. Apesar disso, entre os 940 milhões de habitantes de países pobres,
apenas 89 milhões usam a internet, o que corresponde a uma taxa de penetração
de apenas 9,5%.
Entre os celulares a adoção foi ainda mais rápida. Em 2000
existiam 738 milhões de assinaturas no mundo, e, agora, elas já superam as 7
bilhões, com taxa de penetração de 97%, o que representa praticamente um
celular por habitante no planeta. Isso se deve ao rápido avanço da cobertura.
Em 2000, apenas 58% da população mundial vivia em locais cobertos pela rede 2G.
Em 2015, o percentual chega a 95%. (O GLOBO, 2015, editoria de Sociedade)
Entre os excluídos, as populações das áreas rurais de
países em desenvolvimento são as mais atingidas. Lugares em que, geralmente,
encontram-se as comunidades quilombolas. Assim, ainda que haja o uso dessas
redes e o acesso a essas tecnologias, isso se dá de forma limitada e em muitas áreas,
como em algumas áreas rurais em Juazeiro-Ba, inexistente, em termo de cobertura
de rede. Portanto, pensar nas dificuldades
encontradas pelas comunidades para acessar a INTERNET é pensar nos números que
falam da exclusão digital, na verdade associada a várias outras exclusões a que
estão submetidas essas populações.
As exclusões estão postas no mundo virtual, mas as
articulações e ativismos acontecem na grande rede mundial. Para entender esse processo
trazemos algumas referências da área da cibercultura. Lançado em 1997
como resultado do relatório apresentado ao Conselho Europeu no âmbito do projeto
“Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação”, o livro Cibercultura é
um marco para a compreensão dos estudos nesta área. Pierre Lévy (1999, p.12),
preconiza em sua obra que “mudanças qualitativas estão ocorrendo na ecologia
dos signos e o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de
comunicação para a vida social e cultural”.
O
autor já preconizava o pagamento dos serviços online e o aumento dos abismos
sociais: “O crescimento do ciberespaço servirá apenas para aumentar ainda mais
o abismo entre os bem-nascidos e os excluídos, entre os países do Norte e as
regiões pobres nas quais a maioria dos habitantes nem mesmo tem telefone”
(LEVY, 1999, p.12).
Assim
o autor define ciberespaço e cibercultura:
O termo
especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas
também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres
humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo
‘cibercultura’, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e
intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores
que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. (LEVY, 1999,
p.17)
Segundo Levy, o
desenvolvimento de tecnologias no ciberespaço, ou cibertecnologias, são
encorajadas pelos Estados e a necessidade de supremacia militar é um elemento
importante. O que está sendo desenvolvido em termos de tecnologias é
imprevisível, dado ao crescimento vertiginoso das interfaces e possibilidades.
Para o autor “a emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma
evolução geral da civilização. Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e
uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas” (LEVY, 1999, p.25).
Uma
discussão que nos interessa, desenvolvida pelo autor é relativa as formas de
apropriação dessa tecnologia, que ele vai dizer que não é bom nem má. No
entanto ele faz uma afirmação controversa de que a “a evolução contemporânea da
informática constitui uma impressionante realização do objetivo marxista de
apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores” (LEVY, 1999,
p.245). De certo modo o autor tem razão porque a Internet tem possibilitado a
produção de informações por diversos segmentos, a exemplo das comunidades
quilombolas. Porém, a exclusão e o analfabetismo digital tem limitado
enormemente o uso e ampliação de suas potencialidades. Os grupos excluídos que
atuam na esfera digital o fazem em desvantagem em relação aos grandes
empreendimentos que tem acesso a uma tecnologia mais rápida e preparo para o
seu manejo. Obviamente que isso impacta nas audiências de suas páginas.
O
autor ainda enfatiza como se dá esse processo e suas possibilidades:
Hoje, a
‘produção’ consiste essencialmente em simular, em tratar a informação, em criar
e difundir mensagens, em adquirir e transmitir conhecimentos, em se coordenar
em tempo real. A partir daí, os computadores pessoais e as redes digitais
efetivamente colocam de volta nas mãos dos indivíduos as principais ferramentas
da atividade econômica. Mais ainda, se o espetáculo (o sistema midiático), de
acordo com os situacionistas, é o cúmulo da dominação capitalista, então o
ciberespaço faz uma verdadeira revolução, já que permite – ou permitirá em
breve – a qualquer pessoa dispensar a figura do editor, do produtor, do
difusor, dos intermediários de forma geral para disseminar seus textos, sua
música, seu mundo virtual ou qualquer outro produto de seu espírito. Em contraste
com a impossibilidade de responder e o isolamento dos consumidores de
televisão, o ciberespaço oferece as condições para uma comunicação direta,
interativa e coletiva. (LEVY, 1999, p.245-246)
Nesta
perspectiva o autor não tem considerado as questões relativas às exclusões que
tem colocado 2/3 da população mundial offline, de acordo com os dados da ONU já
mostrados acima. Na verdade, o que nos parece é que a lógica de acesso a
Internet está submetida a lógica de consumo de outros bens no mundo capitalista,
já que os serviços, como ele mesmo apontou tem se tornado pagos, restringido um
acesso universal. Há algumas tendências de universalização, mas que dependem de
políticas públicas a partir de visões de governo e de ideologias que atingem o
poder. Um dos importantes críticos de Pierry Levy é Francisco Rudiger (2013),
que vai apontar as fragilidades desse modelo de interpretação.
Para
Levy, o ciberespaço é o lugar de desenvolvimento de uma inteligência
coletiva viável através das redes abertas da internet, como por exemplo,
as comunidades virtuais, fóruns, web blogs e wikis. A internet estaria abrindo
espaço para mutações na linguagem, ligadas aos processo de mudança dessa mesma
inteligência. Seria uma espécie de aperfeiçoamento da linguagem por meio dessa
inteligência coletiva virtual. Ele acredita em uma ciberdemocracia menos
excludente.
Partindo
de forma crítica das discussões de Levy, podemos pensar o Facebook como esse
espaço de democratização, feitas as devidas ponderações com relação aos temas
da exclusão e do analfabetismo digitais. Agora traremos alguns dados sobre o
Facebook, seu surgimento e suas possibilidades.
Lançado em 2004 nos Estados Unidos
por Mark Zuckeberg e alguns amigos enquanto estudava na universidade de
Harvard, o Facebook (originalmente thefacebook), foi concebido para focar em
alunos que estavam saindo do ensino secundário (High Scool, nos Estados
Unidos). Como aponta Recuero (2009) a ferramenta propunha criar uma rede de
contatos em um momento crucial da vida de um estudante universitário, que é o
momento em que este sai da escola e vai para a universidade, representando na
maioria das vezes, a mudança de cidade e um espectro novo de relações sociais.
No entanto, o sistema inicialmente era fechado e para entrar nele era
necessário ser membro de uma das instituições reconhecidas já que o foco era
escolas, colégios e universidades.
O Facebook funciona através de
perfis e grupos. Em cada perfil existe a possibilidade de agregar módulos de
aplicativos como jogos e ferramentas diversas. É na pergunta “No que você está
pensando agora?” que está fundamentado a experiência da utilização deste site.
É dentro do mural que cada ator publicará suas experiências através de textos
curtos, textos longos através da criação de notas, já que para publicar
diretamente no mural, a publicação não pode exceder 500 caracteres, links para
blogs, sites, vídeos, fotografias, áudio, dentre outros.
Nos primeiros anos a limitação de
contatos era de 5.000, e hoje não existe limitação, a experiência do Facebook
permite dialogar para uma audiência considerável, e instantaneamente receber um
feedback através do botão “curtir”, do novo botão externo “Eu não gosto disso”,
um aplicativo que precisa ser ‘baixado’, o botão “comentar” e até mesmo
“compartilhar”, outras publicações em seu mural.
Lemos e Lévy (2010) ressaltam que
estas experiências nas Comunidades e Redes Sociais on-line são uma nova maneira
de fazer sociedade, e que uma comunidade virtual é um grupo de pessoas que
estão em relação por intermédio do ciberespaço.
Os grupos no Facebook, agregam
pessoas, objetivos e interesses em comum, dentro deles são discutidos assuntos
cujo interesse é afunilado, fugindo do alto grau de dispersão provocado pela
atualização ininterrupta da página inicial e do mural. Além da característica
inerente ao Facebook que é a publicação de conteúdos multimídia no mural, os
grupos permitem conversa simultânea entre seus membros, a inserção de
documentos em sua página lateral, sendo esta ferramenta de utilidade prática
considerável, já que, devido a sua dinamicidade, os conteúdos publicados no
mural do grupo vai dando espaço a novas publicações, e os documentos possuem
links fixos, podendo ser alterados e reconstruídos pelos membros do grupo, o
que Lévy (1998) chama de Inteligência Coletiva.
O autor propõe que se pense, além do
impacto das técnicas sobre a sociedade, em termos de projeto. Os novos meios de
comunicação permitem aos grupos humanos pôr em comum seu saber e seu
imaginário. Forma social inédita, o coletivo inteligente pode inventar uma
'democracia em tempo real', uma ética da hospitalidade, uma estética da
invenção, uma economia das qualidades humanas. Lévy (2008) situa o projeto da
inteligência coletiva em uma perspectiva antropológica de longa duração. Depois
de ter seu ponto fundante na relação com o cosmos e na inserção no processo
econômico, a identidade das pessoas e o vínculo social poderiam expandir-se no
intercâmbio de conhecimentos.
É nesta perspectiva que o Facebook
abre portas e caminhos considerados viáveis para que ocorra o diálogo dentro do
meio acadêmico e em outros grupos, como as comunidades quilombolas, nas suas
relações com a forma de se produzir numa perspectiva que transcenda a individualidade
e seja feita de fato coletivamente.
Lemos e Lévy (2010) vão dizer que
nos ambientes do ciberespaço, as proximidades não desapareceram, elas são
redesenhadas como uma classe importante de proximidades semânticas, ao mesmo
título que a língua, a disciplina, a orientação política, sexual, etc. Lemos (2004), precursor em estudos de
Cibercultura no Brasil, acentua que:
A dinâmica da sociedade contemporânea nos obriga a
buscar outras perspectivas para pensarmos o fenômeno tecnológico contemporâneo.
A vida vem sempre lutar contra a cristalização mortal e moral das formas,
contra as fortalezas solidamente organizadas. A tecnologia não é, e nunca foi,
imune às desorganizações da vida. Esta está sempre tentando achar uma passagem
pequena, um defeito minúsculo, para poder expandir-se. (2002, p.262)
É notório que os movimentos
informais avançam muito mais rapidamente do que as estruturas formais, como a
máquina do estado. Neste sentido, o que o autor propõe é que uma luta no campo
das idéias seja travada contra as fortalezas solidamente organizadas,
entendendo aqui por fortaleza, como as instituições cujos paradigmas já se
encontram construídos não havendo espaços relevantes para processos criativos e
inovadores.
O homem é um individuo comunicativo,
pois, comunicar faz parte de sua essência, de sua natureza. As redes sociais online
podem aproximar universos distantes, pode otimizar os processos de fluxos de
informação dentro mesmo da academia, estas infovias, bem delimitadas produzem
uma revolução no modo de construção de sentidos.
No caso das comunidades quilombolas
percebemos que muitas delas têm conseguido produzir e disseminar linguagens,
estabelecer relações com outros grupos, a partir do espaço dado pela Internet,
que novos tipos de socialização tem se processado. Porém, precisamos avaliar
tudo isso sem o ufanismo que aparece nos
textos de Levy e Lemos, pois as exclusões a que os grupos quilombolas estão
submetidos os tem impedido de exercer plena liberdade no uso dessas tecnologias.
Mas, ao mesmo tempo, muito do que os autores apontam tem sentido,
principalmente no que se refere ao fomento dessa inteligência coletiva.
[1] Este tópico está baseado em um artigo publico pelo
autor deste TCC durante o II Ecovale – Encontro de Comunicaçao do Vale do São
Francisco, realizado pelo curso de Comunicação Social – Jornalismo em
Multimeios, em 2011, intitulado APONTAMENTOS
PARA A UTILIZAÇÃO DO FACEBOOK COMO FERRAMENTA ACADÊMICA NO CURSO DE JORNALISMO
EM MULTIMEIOS DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA. Disponível em: <http://www.uneb.br/ecovale/files/2013/08/artigo-13.pdf>
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