segunda-feira, 5 de novembro de 2018

QUILOMBOS DA BAHIA EM REDE: Uma análise de caráter Netnográfico da presença quilombola nas páginas do Facebook




UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS - CAMPUS III
COLEGIADO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - JORNALISMO EM MULTIMEIOS

JULIANO FERREIRA DO CARMO










QUILOMBOS DA BAHIA EM REDE:  
Uma análise de caráter Netnográfico da presença quilombola nas páginas do Facebook





Monografia apresentada ao Colegiado de Comunicação Social do Departamento de Ciências Humanas, Universidade do Estado da Bahia, Campus III, para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo em Multimeios.

Aprovado em: 14/12/2017

BANCA EXAMINADORA
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Profª. Drª. Marcia Guena dos Santos
Orientadora/UNEB
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Profº. Dr. Juracy Marques dos Santos
Membro interno/UNEB
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Profº. Ms. Cecílio Ricardo de Carvalho Bastos

Membro interno/UNEB

RESUMO


O presente estudo tem por objetivo realizar um levantamento da presença de comunidades quilombolas no Facebook. Descrevemos e analisamos 9 páginas e perfis de páginas quilombolas presentes na Bahia a partir da Netnografia como Método. A Netnografia é uma metodologia que se inscreve entre os estudos da área de Comunicação, Cibercultura e Antropologia e a partir de uma descrição densa conforme proposto por Clifford Geertz, descrevemos e procuramos analisar e interpretar as possibilidades e limitações da presença das páginas de comunidades quilombolas no Facebook. Discutimos as ressemantizações e os marcos legais para as populações quilombolas, historicizamos a respeito da internet e aspectos da cibercultura, bem como a discussão sobre netnografia, a partir de autores como Recuero, Fragoso, Amaral, Kozinets e Hine. Os resultados apontam para uma necessidade de se repensar a presença das comunidades quilombolas no Facebook e nas redes de um modo geral, pois embora haja suas presenças, elas são muito limitadas do ponto de vista da manutenção e atualização destas páginas por diversas motivações, entre elas, a exclusão digital, a falta de conhecimento sobre as ferramentas da plataforma e pela própria dinâmica da vida social que as comunidades estabelecem com as tecnologias. Apontamos como caminhos para superar este pouco engajamento das páginas de comunidades quilombolas, oficinas de educomunicação a partir da pesquisa ação.


Palavras-chave: Quilombos da Bahia, Netnografia, Cibercultura, Facebook, Redes

INTRODUÇÃO

O projeto de pesquisa “Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas do Submédio São Francisco: Identidades em Movimento”, coordenado pela professora Márcia Guena, do Departamento de Ciências Humanas da UNEB, Campus de Juazeiro, nos colocou em contato com uma realidade pouco visível na cidade de Juazeiro e no semiárido. Os subprojetos desenvolvidos pelos bolsistas, entre eles eu, despertou inúmeras questões. Entre elas a das tecnologias. Impressionávamo-nos, eu particularmente, com as antenas parabólicas brilhando no topo das casas de pau a pique. Impressionava-me a Rede Globo ligada no vídeo-show em pleno sol das 14 horas, uma das horas mais duras do dia, enquanto nós penávamos apenas em andar de uma casa pra outra.

Ao iniciarmos as oficinas de Web ou mesmo de fotografia, nos impressionávamos também com os celulares nas mãos dos jovens e o acesso às redes sociais. Ainda que suas comunidades não tivessem sinal de Internet, todos compravam pacotes de serviços das operadoras e mantinham seus perfis no Facebook. Aquelas questões permaneceram latentes na minha memória, sensibilizadas pelas imagens tão contrastantes: não há postos de saúde na maioria das comunidades; a água não é tratada; não há qualquer vestígio de projeto de urbanidade (calçadas, passarelas, plantio de árvores e plantas); mas as parabólicas estão lá firmes.

Havia também outra firmeza: algum tipo de associativismo. Apesar de muitas comunidades de Juazeiro não serem certificadas, mas já se organizavam de alguma maneira: em torno da atividade laboral; em torno das atividades religiosas; ou em torno da terra. Foi essa perspectiva, inicialmente em Juazeiro, que suscitou a construção desse trabalho: Quilombos da Bahia em Rede: uma Netnografia da presença de páginas quilombolas no Facebook. As oficinas de Web realizadas no projeto já citado, a presença constante de comunidades quilombolas no Facebook, o afã da juventude em conhecer com mais profundidade a Internet, o blog da pesquisa “Quilombos e Sertões”, sempre acessado por quilombolas, o ativismo de entidades como a Confederação de Associações Quilombolas (CONAQ) e do Koinonia, uma organização vinculada a Igreja Católica, tudo isso foi nos apontando o caminho e confluindo para um desejo acadêmico de estudar mais regularmente essa presença e que tanto nos ajuda nas investigações sobre comunidades quilombolas.

            Assim, “Quilombos da Bahia em Rede: uma Netnografia da presença nas páginas do Facebook”, traz a análise de nove páginas de comunidades quilombolas da Bahia presentes no Facebook, utilizando como metodologia a netnografia através de autoras como Suely Fragoso, Raquel Recuero e Adriana Amaral (2011), Robert Kozinets (2014) e Christine Hine(2004). Fizemos inicialmente um levantamento preliminar das comunidades quilombolas presentes no Facebook no Brasil. Percebemos que seria um universo muito grande e delimitamos a Bahia, que concentra um pouco mais de 600 das 2.900 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Palmares. Tentamos restringir a área do São Francisco, mas percebemos que não havia registros suficientes. Assim, após a busca por palavras chaves, que serão pormenorizadas na metodologia, chegamos a nove comunidades, cujo critério principal foi atividades da página. Muitas existiam mas não registravam atividade, o que impedia a análise.

Partindo de dados já divulgados pela ONU sobre acesso a Internet, que registra que 3 bilhões de pessoas hoje acessam as redes sociais e outros 4 bilhões estão off-line, nos perguntamos como se dava o acesso das comunidades quilombolas a rede, mais particularmente, como interagiam com a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook. Partimos da hipótese de que estas comunidades usavam esta rede social de forma coletiva, mas que possuíam dificuldade no emprego de todas as suas potencialidades. Foi isso que perseguimos ao longo desta monografia.

            Deste modo, esta pesquisa persegue essa hipótese inicial e para isso optamos por realizar uma investigação sobre a forma como essas comunidades utilizam as potencialidades do Facebook, realizando uma análise descritiva das páginas, a partir das ferramentas oferecidas na plataforma. Não pretendemos realizar análise dos conteúdos veiculados, ainda que façamos inferências sobre eles, muito mais no sentido descritivo do que analítico. Também não pretendemos realizar uma etnografia dos grupos. O nosso locus de pesquisa é virtual: são as páginas e o que elas apresentam. É uma netnografia, cujo pesquisa de campo é virtual e esse campo são as páginas do Facebook. Não nos debruçamos na forma como essas mensagens foram produzidas ou quem as produziu. Estamos fazendo uma análise da mensagem veiculada focando nas formas de uso da plataforma. Ou seja, é um estudo focado na mensagem a partir das ferramentas oferecidas pela plataforma, esta pensada como uma mídia, portanto passível de estudos dentro do campo da Comunicação.

            O objetivo principal dessa pesquisa é verificar se o Facebook é um instrumento efetivo de visibilidade e de ativismo virtual para as comunidades quilombolas da Bahia. Como objetivos específicos pretendemos verificar que ferramentas as comunidades utilizam e de que forma; que links estabelecem com outras comunidades; como se dão os compartilhamentos e acessos a essas páginas; como as ferramentas oferecidas pelo Facebook são utilizadas e o que esse uso denota. 

            Esta monografia está dividida em 5 capítulos, contando com a Introdução. Primeiro iniciamos com a Introdução, O segundo capítulo “QUILOMBOS: RESSEMANTIZAÇÕES E MARCO LEGAL NO BRASIL”, trata do conceito sobre quilombos ao longo da história e o marco legal a que estas comunidades estão submetidas, desde a constituição de 1998, com o objetivo de contextualizar as comunidades que estamos tratando. No terceiro capítulo “A INTERNET, AS REDES SOCIAIS E AS RELAÇÕES VIRTUAIS”, historicizamos o surgimento da Internet e problematizamos o uso dela e das redes sociais através da discussão de Cibercultura. O quarto capítulo metodológico: NETNOGRAFIA COMO MARCO TEÓRICO-METODOLÓGICO aborda sobre o fazer etnográfico na internet e discorre sobre o método utilizado na pesquisa. No quinto capítulo “PÁGINAS QUILOMBOLAS NO FACEBOOK: USOS E VIRTUALIDADES”, realizamos a análise das páginas propostas, trazendo esse conteúdo com imagens. Por fim, apresentamos as considerações finais e as referências bibliográficas.

            Com essa estrutura propomos aqui uma discussão sobre a presença e ativismo das comunidades quilombolas no facebook, tendo consciência de que é um estudo aproximado dessas possibilidades, através da metodologia que pudemos dispor nesse trabalho de conclusão de curso.

QUILOMBOS: RESSEMANTIZAÇÕES E MARCO LEGAL NO BRASIL

            Neste capítulo realizamos uma discussão sobre o conceito de quilombo e como o mesmo foi mudando ao longo da história, desde o século XVI. Trazemos os dados da Fundação Cultural Palmares a respeito da distribuição das comunidades em todo o território nacional, a quantidade de comunidades certificadas e aquelas que pleiteiam esse direito. Esse capítulo foi construído a partir das referências levantadas desde 2011 pela pesquisa “Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas do Submédio São Francisco: Identidades em Movimento”. Assim utilizaremos os autores já estudados ao longo desses anos como José Maurício Arruti, Valdélio Silva, João José Reis e Fábio Gomes, as referências da Associação Brasileira de Antropologia e também os artigos publicados durante a pesquisa, alguns da autoria de quem escreve esse TCC, os quais estão disponíveis no blog da pesquisa: quilomboseertoes. blogspot.com.br. Então as discussões aqui apresentadas estão presentes no material produzido pela pesquisa já referenciada.

            No artigo “Quilombos do submédio São Francisco: definições e delimitações” (SANTOS et.all, 2011) afirmamos que os estudos sobre a rebeldia escrava tiveram uma importância singular na definição de novas metodologias para os estudos sobre a população negra.

Isso se deu após a ruptura com o pensamento racialista do século XIX, que tem em Nina Rodrigues um de seus maiores nomes no país, e à revisão do conceito de democracia racial, já nos anos 50, intelectuais de esquerda, marxistas, debruçaram-se sobre a questão da rebeldia escrava, atribuindo novos papéis às populações negras reunida nos quilombos, porém bastante ancorada em uma perspectiva classista, às vezes inadequada à discussão. Com os estudos contemporâneos algumas dessas limitações foram ultrapassadas, principalmente com a percepção do papel político das populações negras e da forte influência de aspectos da cultura afro-brasileira para a construção de alternativas organizativas. 

            O conceito de quilombo no século XVIII, de acordo com o poder colonial, influenciaria o pensamento até a metade do século XIX. Em 1740, reportando-se ao rei de Portugal, o Conselho Ultramarino valeu-se da seguinte definição de quilombo: ‘toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele. Uma gama de pensadores do século XIX foram influenciados por esta ideia até meados dos anos 70, como Artur Ramos (1953) e Edson Carneiro (1957) (SCHMITT et al, 2002, p.1).

“Com esta concepção cristalizava-se o conceito de quilombo no passado, como oposição à escravidão, “aparecendo como espaço de resistência e de isolamento da população negra” (SCHMITT, TURATTI, CARVALHO, 2002, p.1), um conceito que impedia pensar o quilombo como uma organização contemporânea, urbana e rural.”

            Quando a República foi instaurada, o termo quilombo desaparece da base legal brasileira, todavia continua em vigor no imaginário popular em vários outros lócus. Desde então, passa a adquirir diferentes significados ou ressemantizações ao passo que deixa de ser usado pela ordem repressiva para tornar-se signo de resistência nos discursos políticos. Arruti (2006, p. 318-319) define três tipos principais de ressemantizações do termo: o quilombo como resistência cultural, o quilombo como resistência política, o quilombo como ícone da resistência negra.

            Para Arruti (2006), o conceito de quilombo sofreu ressemantizações que podem ser localizadas historicamente. A primeira delas fala do quilombo como “resistência cultural, espaços onde era construída uma cultura negra no Brasil ou a reprodução de África no Brasil” (ARRUTI, 2006), fase conceitual que dura até os anos 60 do século XX, como acentua o autor. É uma busca da África entre nós, uma ideia presente na obra de Edson Carneiro, um dos poucos autores negros que lançou a obra “Quilombo dos Palmares”. Carneiro faz uma leitura histórica e antropológica da questão, trazendo a ideia de resistência cultural, que guarda as tradições africanas. “Carneiro era militante do Partido Comunista e do movimento negro e foi perseguido pela repressão, tendo conseguido refúgio no terreiro Axé Opô Afonjá (REIS; GOMES, 1996, p. 12)” (ARRUTI, 2006).  

            Em um segundo momento, ou como afirma Arruti (2006), em uma segunda ressemantização, os quilombos são alçados a uma categoria política autônoma, capaz de articular projetos políticos de longo prazo. Uma concepção que se difere muito da até então vigente, na qual o quilombo apesar de ser visto como espaço de resistências, os quilombolas não eram encarados como capazes de desenvolver uma política autônoma e estratégica. Um dos grandes autores desse período, como acentua Santos (2011), foi Clóvis Moura e os teóricos da escola paulista, como Florestan Fernandes e Otávio Ianni. Segundo o autor,

Clóvis Moura, com Rebeliões e Senzalas (1959, Editora Zumbi) vai rediscutir os quilombos a partir de uma perspectiva “mais estritamente marxista” (REIS; GOMES, 1996, p. 12). Na década em que Moura publica o livro, é o momento da desconstrução da ideia de harmonia entre escravos e sistema escravocrata, ou seja a desconstrução das ideias de Gilberto Freyre, da harmonia entre as raças. A chamada escola paulista encabeça esse processo. Apesar disso, Reis e Gomes (1996) também fazem uma dura crítica aos autores dessa escola - que tem entre seus maiores representantes Florestan Fernandes, Otávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso – por atribuírem um papel político menor à resistência escrava, dando ênfase a “coisificação do escravo”. Clóvis Moura e posteriormente Luís Luna, José Alípio Goulart e Décio Freitas, entre outros, irão privilegiar essa resistência. (SANTOS, 2011, p. 5).


Na mesma perspectiva, Reis e Gomes afirmam que,

os quilombos e revoltas passaram então a figurar como assuntos de destaque, embora sobrecarregados por uma tendência à discussão detáticas de guerrilha e de interação entre os quilombos e outros movimentos políticos. (REIS e GOMES, 1996, p.13).

            Assim, apontamos nesse trabalho que a discussão sobre quilombos é marcada ainda nos anos 80 e 90 pela influência marxista, atrelada a problemática cultural. Mas há uma renovação nas discussões através dos estudos que privilegiam a antropologia social “os aspectos simbólicos e rituais da vida em sociedade, contextualizando-os historicamente. (REIS; GOMES, 1996, p. 13)”, que possibilitou trazer uma escuta mais detalhada e uma história contada por dentro das práticas sociais desses grupos.
            O movimento negro vai pautar a terceira fase de significados que discute o conceito de quilombos ou como Arruti (2008) denominou de “terceiro plano de ressemantização”. Como destaca Santos (2011, p. 6), nos anos 70,

principalmente a partir da redescoberta de Palmares. Com o lançamento do livro “O Quilombismo”, de Abdias do Nascimento essa tese ganha corpo teórico, colocando o quilombo como uma perspectiva histórica humanista. Os estudos sobre a escravidão refletem bastante essa mudança metodológica dos estudos, “substituindo a chamada teoria do ‘escravo coisa’ pela ‘teoria do escravo sujeito’, como afirma Mattos (2008, p. 35).

            Na verdade essas discussões foram bastante impulsionadas pela necessidade de se configurar o conceito de quilombo, bastante disputado durante a definição do mesmo para incorporação no texto da constituição. A pressão do movimento negro no sentido de compreender o quilombo para além de algo estático no tempo, vinculado às fugas durante a escravidão e às estratégias de resistência. Certamente a Antropologia e a História vão ser fundamentais para isso. Ou seja, o que está em jogo, na verdade, além do período da escravidão é como essas populações negras se reorganizam nos espaços urbano e rural, como conseguem estabelecer estratégias de sobrevivência, já que o Estado não incorporou essa população no mercado de trabalho e nos processos de políticas públicas instituídos no pós escravidão. A estratégia política de importação de mão de obra europeia para a reconstituição do trabalho no campo, alijou a população afro-brasileira dos processos de construção cidadãs. Assim, as concentrações negras que se estabelecem nos diferentes espaços continuam representando territórios de resistência e solidariedades, para a preservação da vida de um povo. É deste modo que surge o conceito de quilombo que vai ser defendido pelo movimento negro, amparado na antropologia.

Em função dessa mudança de perspectiva, estamos chamando de populações quilombolas às pessoas de origem africana, ou afrodescendentes, que vivem nas Comunidades Negras Rurais de Quilombo, conceito que incorpora as “terras de santo”, “terras de preto”, “mucambos” e quilombos (AMORIN; GERMANI, 2005). Esses territórios não são fruto apenas da fuga de escravos no período escravocrata, com a consequente formação de um grupo de resistência ao sistema de então, eles representam formas diferenciadas de ocupação da terra, decorrentes de laços de consanguinidade, familiaridade entre outros. (SANTOS, 2011, p.6)

            Essa é a configuração de ocupação das terras após a promulgação da Lei Aurea, em 188. Porém, deve-se ressaltar que a Lei de Terras de 1850, que passou a exigir o documento de posse, impediu que levas e levas de populações, que já habitavam várias regiões, tivesse seu uso reconhecido. Como o acesso ao sistema cartorial era um privilégio das elites, e ainda é, muitos grupos quilombolas não conseguiram titular suas propriedades, apesar do uso secular da terra (MATTOS, 2008).

2.1 O MARCO LEGAL NA CONSTITUIÇÃO DE 1988

            É importante pontuar que o imaginário que permeia a nação brasileira acerca dos quilombos é bastante depreciativo, inclusive, o termo quilombo é utilizado como adjetivo no sentido de “desqualificar modalidades próprias de gestão de espaço e da vida quanto para inspirar e representar mobilizações políticas” (MELLO, 2012, p.33). Apesar dessa perspectiva ainda existir no imaginário, é a partir da constituição de 1988 que se estabelece um marco legal de direitos para as comunidades quilombolas.

            O artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), da Constituição Federal de 1988, estabelece que “aos remanescentes das comunidades de quilombolas que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. No entanto esse texto foi fruto de uma disputa conceitual entre os movimentos quilombolas, políticos e academia, em função de diferentes compreensões e interesses acerca do que é quilombo. Essa discussão foi travada de forma minuciosa por Arruti (2008) e Melo (20012).

            Em 1988, a Fundação Palmares foi criada com a finalidade de institucionalizar o reconhecimento da ocupação dessas terras. Além disso, estão entre as suas atribuições a preservação do Patrimônio material e imaterial das populações afrodescendentes. Assim, a Fundação Palmares (2017) é definida institucionalmente como a “instituição governamental responsável pela formalização dos quilombos, bem como o seu assessoramento e estabelecimento de políticas públicas que garantam o acesso à cidadania, entendendo quilombolas como descendentes de africanos escravizados que mantêm tradições culturais, de subsistência e religiosas ao longo dos séculos.”

            Um dos grandes debates se deu em torno da ideia de remanescência, já que isso remetia a algo estático, que necessitava de embasamento arqueológico, como vai destacar Mello (2003).  Foi a partir daí que a Fundação Cultural Palmares (FCP) decidiu realizar o seminário Conceito de Quilombo, lançando mão na noção de “quilombos contemporâneos” pela primeira vez. Foi a partir daí que o Grupo de Trabalho Comunidades Negras Rurais da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) lançou sua definição:

O termo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram constituídos a partir de uma referência histórica comum, construída a partir de vivências e valores partilhados. Neste sentido, constituem grupos étnicos conceitualmente definidos pela Antropologia como um tipo organizacional que confere pertencimento através de normas e meios empregado para indicar afiliação ou exclusão. (GRUPO DE TRABALHO, 2015)

            O que marca esse processo legal e o torna um processo bastante interessante foi a participação dos grupos na definição do marco constitucional, ainda que não tenham sido completamente vitoriosos no estabelecimento do texto utilizado na constituição.

O ponto de partida da análise crítica é a indagação de como os próprios agentes sociais definem e representam suas relações e práticas em face dos grupos sociais e agências com que interagem (...) O importante aqui não é tanto como as agências definem, ou como uma ONG define, ou como um partido político define, e sim como os próprios sujeitos se autorrepresentam e quais os critérios político-organizativos que norteiam suas mobilizações e forjam coesão em torno de uma certa identidade (Almeida apud Mello, 2012, p.44).

            Mello (2012) ainda pontua que apesar dos avanços e deste conceito servir como marco político para os setores em disputa, ele ainda é insuficiente para abarcar a complexidade da discussão. Esta discussão é feita de forma pormenorizada no artigo “Signos de Identidade Étnica: comunidades negras rurais e o processo de ressemantizações do conceito de “Quilombo", de Cassio Lima, Márcia Santos e Victoria Rodrigues, também bolsistas da pesquisa que originou essas reflexões.

2.2 MARCOS LEGAIS PARA AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS

A Constituição de 1988 inaugura o marco legal para a partir do novo conceito já mostrado acima para as comunidades quilombolas, porém esses direitos, apesar de presentes no texto da Lei não tem sido garantidos automaticamente. Impedimentos de diversas ordens têm sido colocados para que a lei se cumpra e são muito maiores para a titulação das terras do que para a certificação, pois envolve o domínio da terra por grandes grupos ligados a agroindústria ou por latifundiários” (SANTOS, 2016).

Hoje existem 2960 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares (FPC) órgão do governo responsável por esse processo, que acontece mediante a entrega pela comunidade de uma solicitação, mediante apresentação de um histórico e de uma ata da comunidade se autoreconhecendo como tal (FCP, 2017). Mas é importante destacar que mesmo essa tramitação exige habilidades por parte do grupo para lidar com esse processo burocrático.  O segundo passo é a solicitação de titulação da terra, documento emitido pelo INCRA. Para isso é solicitado um Relatório antropológico de identificação territorial (SEPIR, 2012).  Inicialmente esse relatório poderia ser elaborado por um antropólogo indicado pela comunidade, porém agora o relatório deve ser feito por um profissional dessa área, indicado pelo INCRA, o que tem atrasado e dificultado os processos de titulação.

Segue aqui uma relação de instrumentos legais que têm sido levados em conta no estabelecimento de direitos dessas populações, além do artigo 68: Convenção 169 da OIT (Dec. 5051/2004) – Direito à autodeterminação de Povos e Comunidades Tradicionais; Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003 – Trata da regularização fundiária de terras de quilombos e define as responsabilidades dos órgãos governamentais; Decreto nº 6040, de 7 de fevereiro de 2007 – Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais; Decreto nº 6.261, de 20 de novembro de 2007 – Dispõe sobre a gestão integrada para o desenvolvimento da Agenda Social Quilombola no âmbito do Programa Brasil Quilombola; Portaria Fundação Cultural Palmares nº 98, de 26 de novembro de 2007 – Institui o Cadastro Geral de Remanescentes das Comunidades dos Quilombos da Fundação Cultural Palmares, também autodenominadas Terras de Preto, Comunidades Negras, Mocambos, Quilombos, entre outras denominações congêneres; Instrução Normativa INCRA nº 57, de 20 de outubro de 2009 – Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação, desintrusão, titulação e registro das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos; Lei 10.639- 2003 sancionada pelo Presidente Lula, que torna obrigatório o ensino de História e da cultura Africana e Afro-brasileira, uma educação que respeita e garante uma educação multicultural (sancionada desde 2003, está longe de ser aplicada efetivamente nas escolas brasileiras); A resolução de Nº 8, de 20 de novembro de 2012, aborda as Diretrizes Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica que são fundamentadas na: memória coletiva, línguas reminiscentes; práticas culturais; tecnologias e formas de produção do trabalho; acervos e repertórios orais; festejos, usos, tradições e demais elencos que formam o patrimônio cultural das comunidades quilombolas de todo o país; territorialidade.

Em 2004, o governo federal lançou o Programa Brasil Quilombola, com o objetivo de “consolidar os marcos da política de Estado para as áreas quilombolas” (SEPIR, 2013), composto por 11 ministérios e gerido pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). O programa trabalha com quatro eixos: acesso à terra; infraestrutura e qualidade de vida; inclusão produtiva e desenvolvimento local; e direitos e cidadania”.

Assim, percebe-se que desde a constituição de 1988 o governo brasileiro vem construindo um marco legal que tem estabelecido políticas de ações afirmativas voltadas para a população negra, como consequência de uma forte pressão de diversas vertentes dos movimentos negros, em particular do movimento quilombola. Porém, muitas comunidades quilombolas desconhecem essas leis e, principalmente, a forma de acessá-las. Essa é uma realidade vivida por uma parte das comunidades visitadas pelo nosso grupo de pesquisa. Ser quilombola, reconhecer o seu passado e sua memória atrelada à ocupação das terras por descendentes de africanos não é um processo natural em uma sociedade que conhece pouco a sua história e seus direitos e onde a presença do Estado é mínima ou nula. Assim, o estatuto legal quilombola torna-se também um privilégio para aqueles que conseguem aceder a esse aparato legal e reconstruir uma memória nos marcos exigidos pela Lei. (SANTOS, 2016, p.8)

            O marco constitucional ainda que não seja o ideal e tenha vários entraves para a sua implantação, ou seja para que as comunidades quilombolas dele usufruam constitui um importante avança do ponto de vista do Estado. Porém, após a assunção do governo de Michel Temer, essas conquistas vêm cotidianamente ameaçadas, inclusive com a possível perda de direito à terra pelas chamados “povos tradicionais”, entre eles indígenas e quilombolas.

            O partido Democratas (DEM) impetrou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no. 3239/2004 para questionar o Decreto no. 4887/2003, que regulamenta a titulação de terras quilombolas no Brasil. A ação estabelece que só aqueles que estavam ocupando a terra a partir de cinco de outubro de 1988 poderiam usufruir do direito à terra. Há ainda a compreensão de que as terras quilombolas englobam apenas as casas e quintais, quando a reivindicação histórica é de que a comunidade tem direito às terras ocupadas. (CONAQ, 2017). Para o advogado da entidade, Oriel Rodrigues de Moraes:

O espaço de vida de quilombos não é isso, é um espaço de reprodução de vida, então tem o espaço místico, o espaços da rezas, o espaço dos cultos, o espaço das ervas … a gente tem uma vivência com a natureza que é muito grande. Dependemos dela e é um espaço de vida, a natureza também é parte da nossa vida. Restringir o território ao espaço que está ocupando naquele momento, é muito grave. (CONAQ, 2017)
           

A anulação desse decreto representaria um retrocesso de todo o marco legal construído desde a constituição de 1988 e deixaria milhares de quilombolas desamparados. Porém, essa disputa ainda não está encerrada. A ação Direta de Insconstitucionalidade ainda será julgada pelo Supremo. 

A INTERNET, AS REDES SOCIAIS E AS RELAÇÕES VIRTUAIS

       Este capítulo tem por objetivo traçar um breve perfil do impacto do surgimento da Internet e o estabelecimento de novas relações a partir das redes sociais, em particular do Facebook. Acreditamos que essa discussão seja necessária para compreendermos a forma como as diversas comunidades tem ocupado esse espaço em uma perspectiva política de atuação. Apesar do principal uso das redes sociais ter o objetivo de socialização de perfis individuais para só então partirem para contatos com outros, há uma incontável presença de perfis coletivos, com diferentes sentidos, desde as propostas econômicas, inseridas no mercado até as mais libertárias, com objetivos emancipatórios e sem fins lucrativos. Desse modo, queremos apenas delinear que mundo é esse para o qual dedicamos atenção na realização desse trabalho.

            A ideia cristalizada que se tem de um quilombo pós-escravidão precisa ser desconstruída. Na contemporaneidade, as comunidades negras rurais quilombolas possuem acesso a diferentes meios de comunicação. O isolamento em aldeias inóspitas e inacessíveis cede lugar a energia elétrica e consequentemente ao televisor, ao rádio, ao aparelho de dvd, a antena parabólica, a antena da TV por assinatura, em alguns lugares e ao celular, que conectado a uma antena externa, não só permite fazer e receber ligações, mas acessar a internet, mais especificamente as redes sociais, como facebook, twitter, instagram e whatsapp, só para citar algumas plataformas mais hegemônicas neste limiar do século XXI.

            É neste contexto de comunidades em rede, conectadas com um mundo globalizado via internet, que se objetiva estudar nesta monografia a presença de populações quilombolas na WEB, mais especificamente no Facebook. Como elas organizam suas páginas, as fotografias, as publicações, ao tempo em que se descreve os aspectos técnicos, se busca, uma tentativa de interpretação do conteúdo publicado nas páginas, perfis e grupos.

            Antes, porém, de apresentar a parte empírica da pesquisa, que é a descrição densa proposta por Clifford Geertz (2008), dentro da Netnografia enquanto método, se discute sobre a Cibercultura, como emergente campo disciplinar, a partir do ponto de vista da Comunicação, principalmente, mas não só. A Cibercultura atravessa a Educação, a Antropologia, a Ciência Política, a Sociologia, a Computação e naturalmente, a Comunicação e o Jornalismo e as demais habilitações da área: Relações Públicas, Rádio e TV, Audiovisual, Cinema. Desse modo, considera-se importante apresentar este debate preliminar sobre Cibercultura, a partir de autores como Pierre Lévy (1999, 1993, 2000, 2010), André Lemos (2004), Luiz Adolfo Andrade (2012), Erick Felinto (2011).

3.1 OS PRIMÓRDIOS DA INTERNET
           
A Rede Mundial de Computadores (World Wide Web), a Intenet, nasceu vinculada a objetivos militares, acompanhando o caminho de surgimento de grande parte da tecnologia desenvolvida no mundo. O marco de início foi a Guerra Fria, uma disputada entre ocidentais e orientais que conduziu a uma corrida tecnológica sem precedentes.

Em 1957, a antiga União Soviética colocou em órbita o seu primeiro satélite espacial artificial, o Sputnik, e, quatro meses depois, o presidente norte-americano Dwight Eisenhower anunciava a criação da AdvancedResearchProjectsAgency (ARPA), ligada ao Departamento de Defesa, cuja missão era pesquisar e desenvolver alta tecnologia para aplicações militares. (PINHO, 2003, p. 21).
           
Em dezoito meses a ARPA lança um satélite artificial, o primeiro dos Estados Unidos que permite o funcionamento desse projeto. Pinho (2011) aponta que, apesar de haver um cerceamento das comunicações tantos nos países capitalistas e comunistas o Departamento de Defesa norte-americano sistematizava “planos complexos de comando e controle para que as altas patentes militares e os políticos pudessem se comunicar e sobreviver no meio de uma guerra nuclear” (PINHO, 2011, p. 21).

            Assim, no marco da Guerra Fria, o pesquisador Carl Robnett Licklider associado a empresa Rand Corporation, descobriu ser necessário a criação de um sistema de comunicação não hierárquico em substituição do tradicional e “a implementação de redes de comutação de pacotes, os quais garantiriam que o comando e o controle dos Estados Unidos pudessem sobreviver no caso de um ataque nuclear maciço destruindo o Pentágono” (PINHO, 2011, p. 22). Então eles partiram de uma estrutura que possuía uma central de comunicação, localizada no Pentágono, para um sistema com múltiplos centros. Antes a comunicação partia do Pentágono, com diversos raios. O novo sistema proposto tinha interconexões em vários pontos e não impedia que a mensagem chegasse ao seu destino caso o centro fosse destruído. Essa tecnologia foi desenvolvida entre 1962 e 1964, como historiciza Pinho (2011, p.23), “é como uma esfera, na qual cada nódulo está conectado com todos os outros e ainda com o central por múltiplos links”. Assim,

O modelo de comunicação não-hierárquica ainda tem a vantagem de possibilitar um protocolo ou conjunto de regras para dividir a mensagem em pacotes menores, os quais seriam endereçados separadamente e remetidos de uma máquina para outra, com evidentes vantagens na velocidade de transmissão e no tráfego por rotas menos congestionadas. (PINHO, 2011 , 23)

Assim a ARPA, em 1967, lança o “primeiro plano real de uma rede de comutação de pacotes”, (Idem, p. 24) sendo batizada de ARPAnet. Esta foi a antecessor da Internet, que iniciou seu caráter experimental em 1969, formada inicialmente pela conexão de computadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), do Stanford ResearchInstitute (SRI), da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB) e da Universidade de Utah. Em 1972, a BBN cria o primeiro programa de envio de correio eletrônico. Em 1973 a Inglaterra e Noruega se juntam a rede por meio do UniversityCollege de Londres e da Royal Radar Establishment. Então iniciam-se as pesquisas para aperfeiçoar o sistema de transferência de dados, fazendo com que a ARPAnet chegue “ao final de 1974 com 62 servidores e a necessidade de aperfeiçoar o protocolo de comunicação” (Idem, p. 26).

O Bob Kahn e VintonCerf desenvolveram e propuseram um novo conjunto de protocolos que permitia a comunicação entre diferentes sistemas. O TransmissionControlProtocol (TCP) e o Internet Protocol (IP) oferecem 4 bilhões de endereços diferentes e utilizam uma arquitetura de comunicação em camadas, com protocolos distintos cuidando de tarefas distintas. A ARPAnet adotou progressivamente o TCP/IP, que funcionou em paralelo com o NCP, até o dia 1º de janeiro de 1983, quando cada máquina conectada com a ARPAnet teve de passar a usar o novo conjunto de protocolos TCP/IP (Idem, p. 27).

            Surgiram outros protocolos de transmissão mais sofisticados como o Net News TransferProtocol (NNTP) e as possibilidades de uso vão se expandindo. Essa rede hoje inteliga 2.500 universidades e institutos de pesquisa nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Neste sentido,

em 1980 foi criada aBecauseIt´s Time Network (Bitnet), uma rede acadêmica da City University de Nova York, com conexão à Universidade de Yale, que utiliza sistemas de correio eletrônico e um mecanismo conhecido como 'listserv', que permitia aos usuários publicar artigos e subscrever mailing lists especializadas em determinados assuntos enviando mensagens para um servidor de listas (idem, p. 27).
           
Em 1984, a National Science Foundation (NSF), um órgão independente do governo norte-americano, passou a ser responsável pela manutenção da ARPAnet. Em 1988 foi criada a Internet Relay Chat (IRC), desenvolvido por JarkkoOikarinen, que permite a diversos usuárias conversarem online. “Outros países se conectam a rede: Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Noruega e Suécia”. Mais 10 países entram em 1989: Austrália, Alemanha, Israel, Itália, Japão, México, Holanda, Nova Zelândia, Porto Rico e Reino Unido. “No mês de setembro do mesmo ano surge oficialmente o projeto de uma rede brasileira de pesquisa, a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), formado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, CNPq, Finep, Fapesb e outras instituições de pesquisa” (PINHO, 2011, p. 30).

            A WorldWide Web surge em 1991, idealizada pelo engenheiro Tim Berneers-Lee, no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), em Genebra, na Suiça. Este é um modo de organização da informação e dos arquivos na rede. “É baseado no modelo de cliente-servidor, tem como principais padrões o protocolo de comunicação HTTP, a linguagem de descrição de páginas HTML e o método de identificação de recursos URL” (PINHO, 2011, p.33). Em 1991 foi permitido o uso da rede para fins comerciais. Em 1993 os meios de comunicação e os negócios para a utilizar a rede. O uso dos recursos de multimídia na Internet surgem a partir do uso de um programa, o Mosaic.

A abertura da internet comercial ocorreu no Brasil em maio de 1995, deixando a rede de ser exclusiva do meio acadêmico para estender seu acesso a todos os setores da sociedade. Entre outras razões, a expansão verdadeiramente vertiginosa da Internet no país (e, naturalmente, em todo o mundo) foi estimulada pelo contínuo e maciço ingresso no ciberespaço de governos, organizações, instituições e empresas comerciais, industriais e de serviços. Aos poucos, até mesmo as empresas de comunicação tradicionais migraram para a rede mundial buscando oferecer aos internautas conteúdo e informação durante as 24h do dia, todos os dias.

Todavia, embora o desenvolvimento de tecnologias propiciasse a expansão da internet, o acesso ainda continuaria restrito por alguns anos, como veremos no ponto a seguir.

3.2 AS EXCLUSÕES NA GRANDE REDE MUNDIAL

            Assim, a expansão da Internet levou a um crescimento vertiginoso de sonhos e possibilidades, muitas das quais não se concretizaram. Um das discussões mais otimistas se davam em relação a democratização da informação e da comunicação. Em parte essas expectativas se concretizaram. Porém a exclusão digital também acompanhou esse crescimento. Um contingente de pessoas já marginalizadas pelo sistema produtivo não tinham acesso à INTERNET, o que provoca exclusões importantes e a emergência do chamado “analfabetismo digital”.

            Na América Latina, a cobertura de celulares atinge quase a totalidade da população e nos últimos dez anos o número de usuários da Internet no continente duplicou. “A porcentagem de latino-americanos que usam a Internet passou de 16,6% em 2005 para 53,5% em 2015, segundo o relatório "O ecossistema e a economia digital na América Latina", coeditado pelo CAF -banco de desenvolvimento da América Latina-, CEPAL, CET.LA e Fundação Telefônica” (CAF,2016). Porém está longe das taxas de uso dos países da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) que são de 82%. Esta organização é composta por 35 países. A maioria possui PIB e índice de Desenvolvimento Humano elevados.

            Em 2015, em relatório divulgado pela International Telecommunication Union (ITU), agência das Nações Unidas para as telecomunicações, o mundo já atingia 3,2 bilhões de internautas, sendo 2 bilhões em países em desenvolvimento. Porém, 2/3 da população das nações em desenvolvimento, ainda não tem acesso à Internet. (O GLOBO, 2015)

Esses novos dados não apenas mostram quão rápido foi o progresso tecnológico feito até hoje, mas ajudam a identificar aqueles que estão sendo deixados para trás pela economia digital, assim como as áreas que mais precisam de investimentos — disse Houlin Zhao, secretário-geral da ITU em conferência de imprensa nesta terça-feira, em Genebra.
Há 15 anos eram apenas 738 milhões de internautas no mundo, sendo apenas 100 milhões no mundo em desenvolvimento. Entre 2000 e 2015, a penetração da internet cresceu sete vezes, de 6,5% para 43% da população global. A proporção de residências com acesso à internet avançou de 18% em 2005 para 46% em 2015. Apesar disso, entre os 940 milhões de habitantes de países pobres, apenas 89 milhões usam a internet, o que corresponde a uma taxa de penetração de apenas 9,5%.
Entre os celulares a adoção foi ainda mais rápida. Em 2000 existiam 738 milhões de assinaturas no mundo, e, agora, elas já superam as 7 bilhões, com taxa de penetração de 97%, o que representa praticamente um celular por habitante no planeta. Isso se deve ao rápido avanço da cobertura. Em 2000, apenas 58% da população mundial vivia em locais cobertos pela rede 2G. Em 2015, o percentual chega a 95%. (O GLOBO, 2015, editoria de Sociedade)
           
Entre os excluídos, as populações das áreas rurais de países em desenvolvimento são as mais atingidas. Lugares em que, geralmente, encontram-se as comunidades quilombolas. Assim, ainda que haja o uso dessas redes e o acesso a essas tecnologias, isso se dá de forma limitada e em muitas áreas, como em algumas áreas rurais em Juazeiro-Ba, inexistente, em termo de cobertura de rede. Portanto, pensar nas dificuldades encontradas pelas comunidades para acessar a INTERNET é pensar nos números que falam da exclusão digital, na verdade associada a várias outras exclusões a que estão submetidas essas populações.

As exclusões estão postas no mundo virtual, mas as articulações e ativismos acontecem na grande rede mundial. Para entender esse processo trazemos algumas referências da área da cibercultura. Lançado em 1997 como resultado do relatório apresentado ao Conselho Europeu no âmbito do projeto “Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação”, o livro Cibercultura é um marco para a compreensão dos estudos nesta área. Pierre Lévy (1999, p.12), preconiza em sua obra que “mudanças qualitativas estão ocorrendo na ecologia dos signos e o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural”.

            O autor já preconizava o pagamento dos serviços online e o aumento dos abismos sociais: “O crescimento do ciberespaço servirá apenas para aumentar ainda mais o abismo entre os bem-nascidos e os excluídos, entre os países do Norte e as regiões pobres nas quais a maioria dos habitantes nem mesmo tem telefone” (LEVY, 1999, p.12).
            Assim o autor define ciberespaço e cibercultura:

O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo ‘cibercultura’, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. (LEVY, 1999, p.17)
           
Segundo Levy, o desenvolvimento de tecnologias no ciberespaço, ou cibertecnologias, são encorajadas pelos Estados e a necessidade de supremacia militar é um elemento importante. O que está sendo desenvolvido em termos de tecnologias é imprevisível, dado ao crescimento vertiginoso das interfaces e possibilidades. Para o autor “a emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma evolução geral da civilização. Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas” (LEVY, 1999, p.25).

            Uma discussão que nos interessa, desenvolvida pelo autor é relativa as formas de apropriação dessa tecnologia, que ele vai dizer que não é bom nem má. No entanto ele faz uma afirmação controversa de que a “a evolução contemporânea da informática constitui uma impressionante realização do objetivo marxista de apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores” (LEVY, 1999, p.245). De certo modo o autor tem razão porque a Internet tem possibilitado a produção de informações por diversos segmentos, a exemplo das comunidades quilombolas. Porém, a exclusão e o analfabetismo digital tem limitado enormemente o uso e ampliação de suas potencialidades. Os grupos excluídos que atuam na esfera digital o fazem em desvantagem em relação aos grandes empreendimentos que tem acesso a uma tecnologia mais rápida e preparo para o seu manejo. Obviamente que isso impacta nas audiências de suas páginas.
 
            O autor ainda enfatiza como se dá esse processo e suas possibilidades:

Hoje, a ‘produção’ consiste essencialmente em simular, em tratar a informação, em criar e difundir mensagens, em adquirir e transmitir conhecimentos, em se coordenar em tempo real. A partir daí, os computadores pessoais e as redes digitais efetivamente colocam de volta nas mãos dos indivíduos as principais ferramentas da atividade econômica. Mais ainda, se o espetáculo (o sistema midiático), de acordo com os situacionistas, é o cúmulo da dominação capitalista, então o ciberespaço faz uma verdadeira revolução, já que permite – ou permitirá em breve – a qualquer pessoa dispensar a figura do editor, do produtor, do difusor, dos intermediários de forma geral para disseminar seus textos, sua música, seu mundo virtual ou qualquer outro produto de seu espírito. Em contraste com a impossibilidade de responder e o isolamento dos consumidores de televisão, o ciberespaço oferece as condições para uma comunicação direta, interativa e coletiva. (LEVY, 1999, p.245-246)

            Nesta perspectiva o autor não tem considerado as questões relativas às exclusões que tem colocado 2/3 da população mundial offline, de acordo com os dados da ONU já mostrados acima. Na verdade, o que nos parece é que a lógica de acesso a Internet está submetida a lógica de consumo de outros bens no mundo capitalista, já que os serviços, como ele mesmo apontou tem se tornado pagos, restringido um acesso universal. Há algumas tendências de universalização, mas que dependem de políticas públicas a partir de visões de governo e de ideologias que atingem o poder. Um dos importantes críticos de Pierry Levy é Francisco Rudiger (2013), que vai apontar as fragilidades desse modelo de interpretação.

            Para Levy, o ciberespaço é o lugar de desenvolvimento de uma inteligência coletiva viável através das redes abertas da internet, como por exemplo, as comunidades virtuais, fóruns, web blogs e wikis. A internet estaria abrindo espaço para mutações na linguagem, ligadas aos processo de mudança dessa mesma inteligência. Seria uma espécie de aperfeiçoamento da linguagem por meio dessa inteligência coletiva virtual. Ele acredita em uma ciberdemocracia menos excludente.

            Partindo de forma crítica das discussões de Levy, podemos pensar o Facebook como esse espaço de democratização, feitas as devidas ponderações com relação aos temas da exclusão e do analfabetismo digitais. Agora traremos alguns dados sobre o Facebook, seu surgimento e suas possibilidades.

3.2  O FACEBOOK[1]

            Lançado em 2004 nos Estados Unidos por Mark Zuckeberg e alguns amigos enquanto estudava na universidade de Harvard, o Facebook (originalmente thefacebook), foi concebido para focar em alunos que estavam saindo do ensino secundário (High Scool, nos Estados Unidos). Como aponta Recuero (2009) a ferramenta propunha criar uma rede de contatos em um momento crucial da vida de um estudante universitário, que é o momento em que este sai da escola e vai para a universidade, representando na maioria das vezes, a mudança de cidade e um espectro novo de relações sociais. No entanto, o sistema inicialmente era fechado e para entrar nele era necessário ser membro de uma das instituições reconhecidas já que o foco era escolas, colégios e universidades.

            O Facebook funciona através de perfis e grupos. Em cada perfil existe a possibilidade de agregar módulos de aplicativos como jogos e ferramentas diversas. É na pergunta “No que você está pensando agora?” que está fundamentado a experiência da utilização deste site. É dentro do mural que cada ator publicará suas experiências através de textos curtos, textos longos através da criação de notas, já que para publicar diretamente no mural, a publicação não pode exceder 500 caracteres, links para blogs, sites, vídeos, fotografias, áudio, dentre outros.

            Nos primeiros anos a limitação de contatos era de 5.000, e hoje não existe limitação, a experiência do Facebook permite dialogar para uma audiência considerável, e instantaneamente receber um feedback através do botão “curtir”, do novo botão externo “Eu não gosto disso”, um aplicativo que precisa ser ‘baixado’, o botão “comentar” e até mesmo “compartilhar”, outras publicações em seu mural.   

            Lemos e Lévy (2010) ressaltam que estas experiências nas Comunidades e Redes Sociais on-line são uma nova maneira de fazer sociedade, e que uma comunidade virtual é um grupo de pessoas que estão em relação por intermédio do ciberespaço. 

            Os grupos no Facebook, agregam pessoas, objetivos e interesses em comum, dentro deles são discutidos assuntos cujo interesse é afunilado, fugindo do alto grau de dispersão provocado pela atualização ininterrupta da página inicial e do mural. Além da característica inerente ao Facebook que é a publicação de conteúdos multimídia no mural, os grupos permitem conversa simultânea entre seus membros, a inserção de documentos em sua página lateral, sendo esta ferramenta de utilidade prática considerável, já que, devido a sua dinamicidade, os conteúdos publicados no mural do grupo vai dando espaço a novas publicações, e os documentos possuem links fixos, podendo ser alterados e reconstruídos pelos membros do grupo, o que Lévy (1998) chama de Inteligência Coletiva. 

            O autor propõe que se pense, além do impacto das técnicas sobre a sociedade, em termos de projeto. Os novos meios de comunicação permitem aos grupos humanos pôr em comum seu saber e seu imaginário. Forma social inédita, o coletivo inteligente pode inventar uma 'democracia em tempo real', uma ética da hospitalidade, uma estética da invenção, uma economia das qualidades humanas. Lévy (2008) situa o projeto da inteligência coletiva em uma perspectiva antropológica de longa duração. Depois de ter seu ponto fundante na relação com o cosmos e na inserção no processo econômico, a identidade das pessoas e o vínculo social poderiam expandir-se no intercâmbio de conhecimentos.

            É nesta perspectiva que o Facebook abre portas e caminhos considerados viáveis para que ocorra o diálogo dentro do meio acadêmico e em outros grupos, como as comunidades quilombolas, nas suas relações com a forma de se produzir numa perspectiva que transcenda a individualidade e seja feita de fato coletivamente.

            Lemos e Lévy (2010) vão dizer que nos ambientes do ciberespaço, as proximidades não desapareceram, elas são redesenhadas como uma classe importante de proximidades semânticas, ao mesmo título que a língua, a disciplina, a orientação política, sexual, etc. Lemos (2004), precursor em estudos de Cibercultura no Brasil, acentua que:

A dinâmica da sociedade contemporânea nos obriga a buscar outras perspectivas para pensarmos o fenômeno tecnológico contemporâneo. A vida vem sempre lutar contra a cristalização mortal e moral das formas, contra as fortalezas solidamente organizadas. A tecnologia não é, e nunca foi, imune às desorganizações da vida. Esta está sempre tentando achar uma passagem pequena, um defeito minúsculo, para poder expandir-se. (2002, p.262)

            É notório que os movimentos informais avançam muito mais rapidamente do que as estruturas formais, como a máquina do estado. Neste sentido, o que o autor propõe é que uma luta no campo das idéias seja travada contra as fortalezas solidamente organizadas, entendendo aqui por fortaleza, como as instituições cujos paradigmas já se encontram construídos não havendo espaços relevantes para processos criativos e inovadores. 

            O homem é um individuo comunicativo, pois, comunicar faz parte de sua essência, de sua natureza. As redes sociais online podem aproximar universos distantes, pode otimizar os processos de fluxos de informação dentro mesmo da academia, estas infovias, bem delimitadas produzem uma revolução no modo de construção de sentidos.

            No caso das comunidades quilombolas percebemos que muitas delas têm conseguido produzir e disseminar linguagens, estabelecer relações com outros grupos, a partir do espaço dado pela Internet, que novos tipos de socialização tem se processado. Porém, precisamos avaliar tudo isso sem o ufanismo que aparece nos textos de Levy e Lemos, pois as exclusões a que os grupos quilombolas estão submetidos os tem impedido de exercer plena liberdade no uso dessas tecnologias. Mas, ao mesmo tempo, muito do que os autores apontam tem sentido, principalmente no que se refere ao fomento dessa inteligência coletiva.




[1] Este tópico está baseado em um artigo publico pelo autor deste TCC durante o II Ecovale – Encontro de Comunicaçao do Vale do São Francisco, realizado pelo curso de Comunicação Social – Jornalismo em Multimeios, em 2011, intitulado APONTAMENTOS PARA A UTILIZAÇÃO DO FACEBOOK COMO FERRAMENTA ACADÊMICA NO CURSO DE JORNALISMO EM MULTIMEIOS DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA. Disponível em: <http://www.uneb.br/ecovale/files/2013/08/artigo-13.pdf>