A
internet é considerada na contemporaneidade como uma das esferas públicas do
século XXI, inclusive por Pierre Lévy, um dos autores citados nesta pesquisa. A
ágora se transporta das praças para os espaços online e a relação entre o real
e o virtual se entrelaçam, não cabendo mais, sequer uma divisão clara entre o
que seria real e o que seria virtual. Estes espaços se convergem e se
complementam.
Estudar
páginas de comunidades quilombolas através da Netnografia como método foi um
grande desafio. Primeiro por conta do ineditismo da temática que fomos
desafiados a pesquisar. Há trabalhos netnográficos, como citamos e
exemplificamos no decorrer da pesquisa, mas voltadas basicamente para a área do
marketing, do consumo e do mercado. Produzir uma Netnografia que discute a
presença de comunidades quilombolas no Facebook é fruto de uma longa caminhada
na graduação que se inicia ainda em 2011, quando me voluntariei ao projeto de
pesquisa "Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas do Submédio
São Francisco: identidades em movimento", liderado pela profª. drª. Marcia
Guena dos Santos. Logo depois, entrei como bolsista da pesquisa e permaneci por
2 anos e meio sempre estudando a partir do objetivo maior da pesquisa, que é
realizar um perfil fotoetnográfico das populações quilombolas do submédio, mais
especificamente em Juazeiro-BA. Aliado ao meu interesse pela área de estudos de
internet e cibercultura, comecei a estabelecer relações entre as populações
quilombolas e a cibercultura, até chegar a esta delimitação temática.
Apesar da
tecnoutopia liberal humanista desenvolvida por Pierre Lévy, a internet tem se
mostrado cada vez mais voltada para o mercado consumidor em conformidade com os
avanços do próprio sistema capitalista. Gigantes como Google e Facebook que ora
se colocaram como promessa de democratização da internet, agora se colocam como
possíveis colonizadoras da web, cercando dia após dia os últimos redutos
verdadeiramente livres que ainda existem na web.
Dados da
ONU, mostrados no início desta pesquisa, revelam que 3 bilhões de pessoas
acessam as redes sociais digitais e outros 4 bilhões permanecem offline. Neste
rastro avassalador de excluídos digitais, o acesso a comunicação, por vezes, é
o que menos importa. Fome, miséria, países devastados por guerras civis compõem
uma conjuntura macrossocial muito mais complexa do que imaginamos.
Queríamos
saber como problema desta pesquisa, se é possível, observar, descrever e
analisar como se dá o acesso das comunidades quilombolas a internet e as redes
sociais, e de forma mais particular como interagem dentro da rede social mais
utilizada no mundo, o Facebook. Nossa hipótese apontava que estas comunidades
usavam a rede social digital de forma coletiva, mas com certos graus de
dificuldades técnicas, não sendo possível utilizar as ferramentas em toda a sua
potencialidade.
A partir
dos dados coletado, observados, descritos e analisados, chegamos a algumas
conclusões. 1. No geral, as comunidades se localizam em áreas de acesso remoto
a internet, ao sinal de celular ou outro meio que possam conectá-las a web e
consequentemente as redes sociais digitais. 2. Usar a internet pressupõe certo
grau de escolaridade, de modo que, sem o domínio mínimo da escrita, o
analfabetismo se associa a exclusão digital, ambos os problemas sociais
caminham juntos, pois sem alfabetização, torna-se praticamente inviável navegar
na internet e utilizar as ferramentas do Facebook para publicar textos,
fotografias, vídeos e realizar algum tipo de ativismo mais organizado dentro da
rede. 3. Ao longo do período em que estive como bolsista de Iniciação
científica, visitamos in loco algumas comunidades quilombolas em Juazeiro-BA e
outras como Lage dos Negros, em Campo Formoso-BA e Tijuaçu, em Senhor do
Bonfim-BA. Em Juazeiro, as comunidades sofrem com muitos problemas. A falta de
saneamento e água tratada, como verificamos em Barrinha da Conceição, o avanço
do agronegócio sobre suas terras, já que muitas destas comunidades ficam às
margens do Rio São Francisco, uma região rica em água e terra fértil e portanto
com excelentes condições para o plantio, explorado de forma recorrente através
de irrigação e monoculturas, como a manga, a uva e a cana de açúcar. O acesso a
transporte público é outro fator limitante para as populações quilombolas. Sem
acesso as leis que cobrem seus direitos, muitas se encontram em um nível de
desorganização política e não conseguem lutar para defender seus territórios. A
comunidade de Pau Preto, no Vale do Salitre é um exemplo de que mesmo com
muitos problemas sociais, inclusive a seca, a partir da energia elétrica,
observamos a presença de telefone orelhão via satélite e alimentado com energia
solar, celular com antena externa, dvd, televisor, antena parabólica e muitas
casas, tv por assinatura como a claro, oi, sky ou planos de internet que lhes
permitem acessar este enorme universo de informações.
Portanto,
conceber a ideia de quilombo como um lugar atrasado, obsoleto e parado no
tempo, não é mais cabível. As comunidades tem acesso a muitas tecnologias,
basta para isso que se tenha energia elétrica e uma renda que lhes possibilite
o acesso a estes bens de consumo.
Todavia,
se a própria comunidade não tiver uma organização política que lute por seus
direitos, articulada pela certificação e titulação, o uso da internet se
tornará meramente para a diversão e o entretenimento, não entrando na agenda
política da comunidade. Além dos fatores limitantes citados acima, é
interessante observar, que nem todas as pessoas estão voltadas para a militância
no seu cotidiano e muitas das que estão, não dominam a técnica. Isso, de certo
modo, explica os resultados muito baixos de interação nas páginas de
comunidades analisadas. Poucas curtidas nas páginas, a maioria abaixo de 1.000
likes, baixa interação nas publicações de um modo geral, com pouca ou nenhuma
reação, comentários ou compartilhamentos.
Então,
inferimos que nossa hipótese inicial estava correta, ao dizermos que as
comunidades possuem dificuldade no uso e emprego das ferramentas da Internet e
do Facebook. Criar a página não é o mais difícil. O uso intuitivo do Facebook,
faz com que aprendamos a usar suas ferramentas na prática, experimentando. No
entanto, o problema maior está na produção de conteúdo. Escrever textos, fazer
fotografias, baixar em um computador, subir para a página, ou subir diretamente
de um smartphone, todas estas rotinas realizadas em páginas mais elaboradas por
um profissional chamado de social media, é feito pelas comunidades por
voluntários, não havendo uma profissionalização, dificultando a manutenção
destas páginas. Daí que muitas delas analisadas estão desatualizadas há
bastante tempo.
A partir
da nossa hipótese inicial, queríamos saber também em nosso objetivo principal
se o Facebook é um instrumento efetivo de visibilidade e de ativismo virtual
para as comunidades quilombolas da Bahia. A partir dos dados apresentados no
decorrer do capítulo de análise empírica, podemos inferir que não.
De que
modo, então, as comunidades quilombolas se fazem presentes no Facebook? O
Facebook é muito grande, com muitas páginas, perfis, grupos com os mais
diversos assuntos. Percebemos que as páginas das comunidades ficam escondidas
sob o emaranhado de dados e só são encontradas a partir da pesquisa específica
com o nome quilombos ou quilombolas. Sem o uso da pesquisa, dificilmente o
Facebook vai ofertar, através de seus algoritmos, "páginas que você talvez
conheça" ou que possua interesse em curtir, comentar ou compartilhar. O
nível de penetração é baixo e embora as páginas exerçam um papel importante de
denúncia, em alguns casos, de mostra das identidades culturais, discussões em
espaços políticos, os modos de vida e de pertencimento aos territórios
quilombolas, as páginas não conseguem ser instrumentos efetivos de visibilidade
e ativismo online. As ferramentas utilizadas por quem administra as páginas são
bastante elementares. O Menu padrão, com informações sobre as páginas, fotos,
vídeos em algumas, publicações e comunidades.
Como
possibilidade para sanar parte destas dificuldades apresentadas nas páginas,
sugerimos oficinas de web através da Educomunicação e Pesquisa Ação. A
Educomunicação pode ajudar a mediar e elaborar criticamente produtos
comunicacionais sob o ponto de vista das comunidades. São elas falando sobre si
próprias e gerando produtos comunicacionais que retratem suas riquezas e
potencialidades. Muitas delas já apresentam muitos produtos comunicacionais.
Cada página apresentada nesta pesquisa é um instrumento de visibilidade para
elas e pode ser potencializada. Questões técnicas, logísticas e operacionais
são fatores limitantes para a realização destas oficinas. Assim, pensamos que é
importante que as próprias comunidades coloque como uma de suas frentes de
ação, a luta para conseguirem implantar em suas comunidades, infocentros digitais,
com computadores utilizando software livre e conectados a internet. Estas
políticas devem ser realizadas por governos municipais, estaduais e federais em
parceria conjunta com as próprias comunidades, setores da sociedade civil e
parcerias público-privadas.
Há muitas
frentes de trabalho a serem realizadas em favor das populações quilombolas e este
trabalho pretende ser, dentro da nossa área de Comunicação e Jornalismo, uma
modesta contribuição que evoca a existência e presença das comunidades no
Facebook. Esperamos que a partir desta pesquisa, possamos continuar outros
trabalhos dentro da área de Estudos da Internet, de Mídia, Jornalismo e
Cibercultura, voltados para populações quilombolas, povos tradicionais e outros
segmentos da sociedade, que lutam para perseguir seus direitos.
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