segunda-feira, 5 de novembro de 2018

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A internet é considerada na contemporaneidade como uma das esferas públicas do século XXI, inclusive por Pierre Lévy, um dos autores citados nesta pesquisa. A ágora se transporta das praças para os espaços online e a relação entre o real e o virtual se entrelaçam, não cabendo mais, sequer uma divisão clara entre o que seria real e o que seria virtual. Estes espaços se convergem e se complementam.

Estudar páginas de comunidades quilombolas através da Netnografia como método foi um grande desafio. Primeiro por conta do ineditismo da temática que fomos desafiados a pesquisar. Há trabalhos netnográficos, como citamos e exemplificamos no decorrer da pesquisa, mas voltadas basicamente para a área do marketing, do consumo e do mercado. Produzir uma Netnografia que discute a presença de comunidades quilombolas no Facebook é fruto de uma longa caminhada na graduação que se inicia ainda em 2011, quando me voluntariei ao projeto de pesquisa "Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas do Submédio São Francisco: identidades em movimento", liderado pela profª. drª. Marcia Guena dos Santos. Logo depois, entrei como bolsista da pesquisa e permaneci por 2 anos e meio sempre estudando a partir do objetivo maior da pesquisa, que é realizar um perfil fotoetnográfico das populações quilombolas do submédio, mais especificamente em Juazeiro-BA. Aliado ao meu interesse pela área de estudos de internet e cibercultura, comecei a estabelecer relações entre as populações quilombolas e a cibercultura, até chegar a esta delimitação temática.

Apesar da tecnoutopia liberal humanista desenvolvida por Pierre Lévy, a internet tem se mostrado cada vez mais voltada para o mercado consumidor em conformidade com os avanços do próprio sistema capitalista. Gigantes como Google e Facebook que ora se colocaram como promessa de democratização da internet, agora se colocam como possíveis colonizadoras da web, cercando dia após dia os últimos redutos verdadeiramente livres que ainda existem na web.

Dados da ONU, mostrados no início desta pesquisa, revelam que 3 bilhões de pessoas acessam as redes sociais digitais e outros 4 bilhões permanecem offline. Neste rastro avassalador de excluídos digitais, o acesso a comunicação, por vezes, é o que menos importa. Fome, miséria, países devastados por guerras civis compõem uma conjuntura macrossocial muito mais complexa do que imaginamos.

Queríamos saber como problema desta pesquisa, se é possível, observar, descrever e analisar como se dá o acesso das comunidades quilombolas a internet e as redes sociais, e de forma mais particular como interagem dentro da rede social mais utilizada no mundo, o Facebook. Nossa hipótese apontava que estas comunidades usavam a rede social digital de forma coletiva, mas com certos graus de dificuldades técnicas, não sendo possível utilizar as ferramentas em toda a sua potencialidade.

A partir dos dados coletado, observados, descritos e analisados, chegamos a algumas conclusões. 1. No geral, as comunidades se localizam em áreas de acesso remoto a internet, ao sinal de celular ou outro meio que possam conectá-las a web e consequentemente as redes sociais digitais. 2. Usar a internet pressupõe certo grau de escolaridade, de modo que, sem o domínio mínimo da escrita, o analfabetismo se associa a exclusão digital, ambos os problemas sociais caminham juntos, pois sem alfabetização, torna-se praticamente inviável navegar na internet e utilizar as ferramentas do Facebook para publicar textos, fotografias, vídeos e realizar algum tipo de ativismo mais organizado dentro da rede. 3. Ao longo do período em que estive como bolsista de Iniciação científica, visitamos in loco algumas comunidades quilombolas em Juazeiro-BA e outras como Lage dos Negros, em Campo Formoso-BA e Tijuaçu, em Senhor do Bonfim-BA. Em Juazeiro, as comunidades sofrem com muitos problemas. A falta de saneamento e água tratada, como verificamos em Barrinha da Conceição, o avanço do agronegócio sobre suas terras, já que muitas destas comunidades ficam às margens do Rio São Francisco, uma região rica em água e terra fértil e portanto com excelentes condições para o plantio, explorado de forma recorrente através de irrigação e monoculturas, como a manga, a uva e a cana de açúcar. O acesso a transporte público é outro fator limitante para as populações quilombolas. Sem acesso as leis que cobrem seus direitos, muitas se encontram em um nível de desorganização política e não conseguem lutar para defender seus territórios. A comunidade de Pau Preto, no Vale do Salitre é um exemplo de que mesmo com muitos problemas sociais, inclusive a seca, a partir da energia elétrica, observamos a presença de telefone orelhão via satélite e alimentado com energia solar, celular com antena externa, dvd, televisor, antena parabólica e muitas casas, tv por assinatura como a claro, oi, sky ou planos de internet que lhes permitem acessar este enorme universo de informações.

Portanto, conceber a ideia de quilombo como um lugar atrasado, obsoleto e parado no tempo, não é mais cabível. As comunidades tem acesso a muitas tecnologias, basta para isso que se tenha energia elétrica e uma renda que lhes possibilite o acesso a estes bens de consumo.

Todavia, se a própria comunidade não tiver uma organização política que lute por seus direitos, articulada pela certificação e titulação, o uso da internet se tornará meramente para a diversão e o entretenimento, não entrando na agenda política da comunidade. Além dos fatores limitantes citados acima, é interessante observar, que nem todas as pessoas estão voltadas para a militância no seu cotidiano e muitas das que estão, não dominam a técnica. Isso, de certo modo, explica os resultados muito baixos de interação nas páginas de comunidades analisadas. Poucas curtidas nas páginas, a maioria abaixo de 1.000 likes, baixa interação nas publicações de um modo geral, com pouca ou nenhuma reação, comentários ou compartilhamentos. 

Então, inferimos que nossa hipótese inicial estava correta, ao dizermos que as comunidades possuem dificuldade no uso e emprego das ferramentas da Internet e do Facebook. Criar a página não é o mais difícil. O uso intuitivo do Facebook, faz com que aprendamos a usar suas ferramentas na prática, experimentando. No entanto, o problema maior está na produção de conteúdo. Escrever textos, fazer fotografias, baixar em um computador, subir para a página, ou subir diretamente de um smartphone, todas estas rotinas realizadas em páginas mais elaboradas por um profissional chamado de social media, é feito pelas comunidades por voluntários, não havendo uma profissionalização, dificultando a manutenção destas páginas. Daí que muitas delas analisadas estão desatualizadas há bastante tempo.

A partir da nossa hipótese inicial, queríamos saber também em nosso objetivo principal se o Facebook é um instrumento efetivo de visibilidade e de ativismo virtual para as comunidades quilombolas da Bahia. A partir dos dados apresentados no decorrer do capítulo de análise empírica, podemos inferir que não.
De que modo, então, as comunidades quilombolas se fazem presentes no Facebook? O Facebook é muito grande, com muitas páginas, perfis, grupos com os mais diversos assuntos. Percebemos que as páginas das comunidades ficam escondidas sob o emaranhado de dados e só são encontradas a partir da pesquisa específica com o nome quilombos ou quilombolas. Sem o uso da pesquisa, dificilmente o Facebook vai ofertar, através de seus algoritmos, "páginas que você talvez conheça" ou que possua interesse em curtir, comentar ou compartilhar. O nível de penetração é baixo e embora as páginas exerçam um papel importante de denúncia, em alguns casos, de mostra das identidades culturais, discussões em espaços políticos, os modos de vida e de pertencimento aos territórios quilombolas, as páginas não conseguem ser instrumentos efetivos de visibilidade e ativismo online. As ferramentas utilizadas por quem administra as páginas são bastante elementares. O Menu padrão, com informações sobre as páginas, fotos, vídeos em algumas, publicações e comunidades.

Como possibilidade para sanar parte destas dificuldades apresentadas nas páginas, sugerimos oficinas de web através da Educomunicação e Pesquisa Ação. A Educomunicação pode ajudar a mediar e elaborar criticamente produtos comunicacionais sob o ponto de vista das comunidades. São elas falando sobre si próprias e gerando produtos comunicacionais que retratem suas riquezas e potencialidades. Muitas delas já apresentam muitos produtos comunicacionais. Cada página apresentada nesta pesquisa é um instrumento de visibilidade para elas e pode ser potencializada. Questões técnicas, logísticas e operacionais são fatores limitantes para a realização destas oficinas. Assim, pensamos que é importante que as próprias comunidades coloque como uma de suas frentes de ação, a luta para conseguirem implantar em suas comunidades, infocentros digitais, com computadores utilizando software livre e conectados a internet. Estas políticas devem ser realizadas por governos municipais, estaduais e federais em parceria conjunta com as próprias comunidades, setores da sociedade civil e parcerias público-privadas.


Há muitas frentes de trabalho a serem realizadas em favor das populações quilombolas e este trabalho pretende ser, dentro da nossa área de Comunicação e Jornalismo, uma modesta contribuição que evoca a existência e presença das comunidades no Facebook. Esperamos que a partir desta pesquisa, possamos continuar outros trabalhos dentro da área de Estudos da Internet, de Mídia, Jornalismo e Cibercultura, voltados para populações quilombolas, povos tradicionais e outros segmentos da sociedade, que lutam para perseguir seus direitos.

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